Formação e inovação no ensino superior

 

Como estamos, hoje, em termos de formação e inovação no ensino superior? É a questão que terá que continuar a colocar-se. As respostas parecem apontar no sentido de que, embora os ambientes ou contextos e os processos de conhecer, aprender, ajudar a aprender e a pesquisar tenham mudado bastante, os resultados ainda não são muito perceptíveis. Por outro lado, a velocidade e a circulação da informação está a exigir uma outra conceção e atitude dos processos de formação e pesquisa com base em novas metodologias. É neste ponto, onde a inovação parece não ter tido grande progresso embora haja ideias que começam a fazer o seu caminho e poderão ter um impacto que, neste momento, ainda não é muito visível.  

De qualquer modo, pode, desde já, observar-se a emergência de novos modelos de docência e aprendizagem no ensino superior com base, sobretudo, em novas formas de acesso à informação e sua gestão em novo conhecimento bem como a sua comunicação e partilha presencial e à distância que os novos contextos socioculturais e tecnológicos vieram facilitar.  

Para isso, é  imprescindível uma verdadeira autonomia, respeito pela diversidade sem perder de vista o sentido da unidade, abertura de espírito, ligação, conectividade pessoal, social e cultural, trabalho, esforço, compromisso, organização e gestão, colaboração e partilha aproveitando todas as possibilidades que as novas tecnologias da informação e da comunicação oferecem e disponibilizam à escala global. Grandes desafios, possibilidades e riscos estão ao alcance da humanidade que a formação, a inovação e a pesquisa no ensino superior não poderão deixar de considerar e ter presentes na sua ação. Para que essa transformação aconteça na realidade precisa-se de uma nova mentalidade que se abra às ideias mais avançadas e consistentes que o progresso científico e tecnológico está a possibilitar bem como  uma nova maneira de estar e de agir esclarecida, rigorosa e exigente que garanta a sua concretização e realização.

As tendências mais avançadas e inovadoras na docência e na aprendizagem parecem ir claramente nesta direção mas será preciso incentivá-las, desenvolvê-las, consolidá-las e otimizá-las. Nesta ingente tarefa, o poder mágico de conhecer e aprender com inteligência, emoção e querer, trabalho e envolvimento pessoal, social e profissional é a condição sine qua non para o seu sucesso. Convirá, no entanto, clarificar e incentivar o sentido profundo dessa ação de conhecer e aprender que atravessa e configura toda a atividade humana. É também na escola e, sobretudo, na escola que este trabalho deve ser feito com os alunos . Para que isso aconteça, na realidade, as estratégias, os métodos de conhecer, aprender e investigar deverão ser profundamente repensados e, porventura, alterados. 

Se queremos atingir maiores níveis de organização, gestão de recursos e de produtividade nas nossas sociedades, o grande trabalho terá que ser feito nas instituições de formação inicial e contínua ao longo da vida, nos múltiplos e diversos lugares de trabalho envolvendo o maior número de pessoas válidas e durante o mais tempo possível. Só assim, os povos serão mais ricos e poderão fazer uma distribuição da riqueza mais justa e equitativa elevando tanto quanto possível os níveis de possibilidades e de bem estar de todos ou, pelo menos, do maior número. As elevadas percentagens de pobreza que tendem a aumentar nos nossos dias só provam que há algo a fazer em profundidade e em extensão com calma, serenidade e rigor a que a contestação, os manifestos e o ruído inútil não acrescentam nada para além de serem uma enorme perda de tempo e de energias que poderiam ser empregues de uma forma bem mais séria e eficaz.  

O que nos vai chegando da leitura dos novos contextos e exigências de um mundo cada vez mais globalizado e desligado de referências éticas que o orientaram  num passado não muito distante, diz-nos que é necessário repensar a formação dos cidadãos em todos os níveis de um modo mais autónomo, aprofundado, colaborativo, inteligente, livre e responsável utilizando todos os recursos disponíveis que, hoje, nos são facilitados pelo progresso científico, tecnológico e sociocultural.  Este parece ser o grande desafio que se coloca a todos os atores de educação, socialização, formação, pesquisa, cultura e desenvolvimento científico e tecnológico. Mas o mais importante e decisivo é o saber encontrar o seu equilíbrio humano entre os avanços tecnológicos e a sua justa apropriação e articulação com o desenvolvimento dos valores éticos e culturais bem como  a sua abertura aos outros no sentido da optimização pessoal,  profissional e social  na prossecução desta sua grande aventura, no espaço e no tempo, a caminho da sua realização.

Não basta, pois, mais ciência, cultura e tecnologia é necessário um ideário verdadeiramente humano e solidário, exigente, rigoroso e tolerante. Será isso aquilo que poderíamos chamar sabedoria. O nosso tempo precisa de mais sábios inteligentes, livres e responsáveis que ajudem os humanos a tornar-se mais humanos contra uma barbárie que avança e se globaliza de uma forma desenfreada e escandalosa a coberto de discursos de um politicamente correto que apenas mascara a inércia de um status quo gritante e intolerável.

Não basta pedir mais recursos para a formação e a pesquisa no ensino superior, era preciso mudar as mentes, os contextos e os comportamentos. Não sei se isso estará a acontecer apesar do enorme progresso científico e tecnológico e se as pessoas são verdadeiramente mais esclarecidas, autónomas, responsáveis. As notícias que nos vão chegando dos diferentes quadrantes a nível nacional, internacional e global são difusas, imprecisas e, muitas vezes, contraditórias.

O que se nota e não deixa de ser curioso é que os atores de ontem que, na primeira linha, se esforçavam por uma nova concepção educativa e novas formas de conhecer, aprender e educar para a cidadania, sofreram os ataques de toda a ordem e até desleais daqueles que vinham das chamadas ciências mais duras. Hoje, parece que essas mesmas concepções começam a ser trazidas para a discussão e o debate por esses outros atores no campo da educação e da formação com grande audiência e aceitação. As pessoas passam mas as boas ideias e as conclusões científicas vão ficando servidas embora por outras abordagens pedagógicas e outros rostos vnidos das diferentes áreas científicas e tecnológicas.

Efetivamente, um novo homem está a nascer e, porventura, a configurar esta nova  vaga como uma sociedade dos "pulgares" que as novas tecnologias da informação e da comunicação vieram possibilitar e os mais velhos aprendem conjuntamente com as novas gerações  e se tornam mais jovens, mais espontâneos e desinibidos obrigando os próprios espaços, equipamentos,  construções e instituições de educação e de  formação a todos os níveis a tornarem-se mais dinâmicos, resilientes e adequados às novas exigências de conhecer, aprender, pesquisar, comunicar e agir.